Brasília Teimosa

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09 de fevereiro de 2018

A partir da crônica escrita ontem e publicada hoje na “Revista Será?”, “Joana, rainha do baile”, Diários do Pina passa a ser nomeado Crônica Social. Diários do Pina e BlocoMomentear são irmãos gêmeos. Crônica Social é a mãe dos dois.

O que faz um cronista social? Vai para as festas, os salões, reuniões, cinema, tudo o que é a matéria viva de seu ofício. Depois escreve. No meu caso, também faço de minha janela e das caminhadas pelas ruas, meu camarote de observação. Gasto mais tempo escrevendo e lendo do que nesses divertimentos, mesmo sendo eles todos de minha escolha. Só frequento o que aprecio.

A caminhada, por exemplo. Vejo tantos caminhando por obrigação, por receita médica. Rosto contrito, passo apressado. Ou se distraindo em conversas, ouvindo música. Para mim, caminhar é um passeio diário. Não tenho pressa. Se a maré está baixa, aí é o paraíso: o mar e o vento soberanos abafando qualquer barulho de motores.

Por esses dias, com a maré cheia, mudei minha rota. Vou na direção da Brasília, que é como os habitantes de lá preferem nomeá-la, Moro na Brasília. Para morar em Brasília, teriam que se deslocar para o Planalto Central. O sobrenome Teimosa, preferem ignorá-lo, pois isso foi apenas utilizado pelos planejadores urbanos à época de fundação do bairro, lá se vão décadas. Teimosa porque, à revelia do poder público, os pioneiros criaram o fato consumado. A Wikipédia diz que é a mais antiga ocupação urbana do Recife. Hoje, já tem toda uma geração nascida e criada lá.

Caminho então pelo calçadão na direção de Brasília Teimosa, o bairro vizinho ao Pina, conectado ao norte diretamente com os arrecifes da área do Porto Velho do Recife, hoje, terreiro de algumas das esculturas de Francisco Brennand. Ao início do calçadão, um posto policial separa os dois bairros, Pina e Brasília. Já a separação do Pina em relação à vizinha Boa Viagem tem outros marcos: o terreiro de Iemanjá para a festa de oito de dezembro; e o pé de Castanhola mais frondoso, onde os casais se escondem no banco de trás para namorar no escurinho da noite.

Ao sair do calçadão e entrar na Brasília, vou ladeando as casas, restaurantes, lava-jato, que espiam do outro lado da rua o ameaçador edifício em vidro ray-ban. Foi corajoso o empresário, que precisou, para adentrar tão sólido terreno construído em lutas e benzido pelo presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, depois que as palafitas foram transformadas em um calçadão mais aprazível do que o do Pina-BoaViagem, sem que ninguém precisasse mudar de bairro. Foi corajoso, repito, esse empresário. Nomeou socióloga para amenizar a invasão e entrou.

Mas o bairro continua intocável. Ao andar pelas calçadas esburacadas e sem manutenção (o que não é privilégio de lá), quem nasceu em qualquer cidade do interior de Pernambuco lembrará sua infância, sua primeira juventude, antes de vir completar os estudos na capital. Becos, ruas estreitas, pessoas na rua. Lá, as crianças não precisam ficar entocadas nas prisões gradeadas dos edifícios. Precisam apenas saber das companhias, para não andar com almas sebosas, a ameaça que ronda qualquer bairro da chamada periferia.

Depois que passo pela praça São Pedro, homenagem de velhos pescadores ao padroeiro dos que ainda hoje fazem da pesca o seu ofício, já avisto de novo o mar. Num dia útil, caminhando ida e volta até os fundos do Iate Clube, onde acaba o mar bravio e começa uma prainha minúscula, o ruído monótono e embriagador das ondas quebrando nas pedras e na murada protetora só foi interrompido por poucos motores: seis automóveis particulares, um taxi, quatro motos, dois ônibus, muitas bicicletas. Estivesse no calçadão de Boa Viagem?

Em compensação, os caminhões da prefeitura não recolhem os sacos de lixo à noite nem de madrugada, como fazem em BoaViagem-Pina. Ficam expostos na beirada do calçadão, que lá não tem luxos de lajotas ecológicas: é de cimento, como as lajes das casas para os churrascos domingueiros. Paraíso para os pombos, os únicos que, comigo, fazem o percurso inverso do lugar dos ricos para o dos pobres. Para mim, em favor da beleza e do silêncio melodioso do mar. Para eles, pobres aves urbanas, em favor de um bom prato de comida.

Outro dia, em outro momentear, dei um conselho ao prefeito que tinha a ver com o lixo. Hoje faço o mesmo para um candidato a vereador. Bom, só daqui a dois anos. Prezado candidato a vereador: use toda sua verba de campanha para realizar suas obras antes de virar vereador. Com auto-falante pelas ruas, como costumam fazer em épocas eleitorais, não prometa. Faça. Recolha o lixo e faça uma campanha pela limpeza pública. Todos gostarão de ver como se sentem melhor com as ruas limpas e cheirosas. Diga e faça isso na sua campanha, e se empenhe seriamente na limpeza das ruas de onde você quer tirar votos para se eleger.

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