
20 de fevereiro de 2018
Os escritores gostam de dizer sua rotina e os leitores devaneiam nas coisas corriqueiras que o escritor faz para escrever. Uns acordam de madrugada, escrevem antes do sol. Outros adentram a noite. Antônio Prata escreveu uma crônica sobre o vizinho de cima que reformava um cômodo da casa em horário comercial. Isso perturbava seu horário de dormir. À noite, horário comercial dele, escritor, estaria morto de cansado porque passara todo o dia em claro.
Quando alguém lê uma cena dessa, logo pensa: eu também sou notívago (o mundo, como sabemos, é dividido entre estes e os solares), posso escrever um livro.
Quem não quer escrever um livro? É feito brincar carnaval, homem se vestir de mulher. A maioria das vezes são desejos escondidos, jamais confessados. As fantasias são de cada um. Ficar famoso talvez seja o que puxa o cordão, num bloco de carnaval. Escritores de livro são famosos. E quem não tem uma boa história para contar? A minha, de meu avô, meu irmão, um amigo, minha melhor amiga. Não dá um romance?
Qualquer história boa dá um romance. Todas estão ao alcance da mão. É um mistério porque a algumas almas é dado o dom de fazer a sua sair do desejo e entrar na rua.
Gosto muito de ler boas crônicas sociais. E também poesia, contos. Mas prefiro romance. Romance é a melhor coisa que se inventou nessa vida. (O escurinho do cinema vem depois). Os do século XIX, do XX, que maravilha! Vejam como vai longe minha vida. O romance faz a vida d’agente durar séculos.
Já a crônica, por ser um elemento do ar, voa leve, chuva passageira.
Há dias em que vou para a rua. Abro a porta para o mundo que está acontecendo. São os dias da crônica social. Outros é o oposto. Olho para dentro de mim. São os dias do romance. Gosto de escrever os dois igualmente. A mesma coisa que amar aos filhos: é diferente cada um, mas pesa igual na balança. Pode pesar somente algumas gramas, um quilo, uma arrouba, pode conter algodão ou ferro. Porém o peso é igual.
Hoje, meus leitores, é dia de romance. A escolha dos dias não é feita por mim. Com a fumaça, vem um anjo ou demônio e é ele quem me sopra ao ouvido por onde eu vou seguir viagem naquele dia. As vezes a escolha nasce do sonho da noite.
Os caminhos do romance são mais dificultosos. Botei prazo para ele, quis trata-lo como fazia com teses, livros e artigos. Matérias de contar. Porém mostrar é outra coisa, quase inteiramente distinta. De comum, só a escrita que se aprende no curso primário. Agora desisti. Ele, o romance, vai seguir seu curso, caprichoso como é. Espero que um belo dia me comunique: estou pronto, pode abrir a porta e me jogar no mundo.
Se pudesse, pedia mais um dia sombrio, que é o que mais combina com o mergulho que acabei de dar dentro de mim. Mas não. Às 5:35, com um atraso de meia hora, nasce o sol, com cara de quem veio para abafar na festa: uma faixa dourada de puro fogo entre nuvens escuras e mar brilhante de ondas rendilhadas. A areia, os morrinhos do Pina e o campo de futebol enlameado completam o quadro de um dia nascido para ser verão. Um lindo quadro. Fosse um pintor, com essa visão luminosa das 5:35 da madrugada?
Tão clara a faixa de sol, salpica passadas nas águas rasas do mar quando a onda passageira volta para o oceano. E faz nascer um filho seu, sol, no pedacinho de terra molhada que a onda deixou por um breve tempo. No campo de futebol, o que vemos na foto lembra restos de neve.
Agora, 6:45, retornou o tempo nublado. Fui.