A Mulher do Sétimo Andar andava acordando cada dia mais cedo, para dar tempo de lavar o rosto, lambuzar a cara de protetor solar, se vestir de papangu e tomar o caminho proibido do calçadão. A maré não colaborava, ainda transbordando restos da lua cheia, sem deixar espaço para os caminhantes. O jeito era enfrentar as barreiras.
Desobediência civil. Já fizera isso em mil novecentos e sessenta e oito, em nome de uma causa. Quando passou a pensar com seus próprios miolos e não dos companheiros de luta, deu para pesar e medir aquela causa. Uma mocinha magricela, óculos grandes, cabelos castanho claro, soltos ao vento, usava o que era quase uniforme: uma sainha na altura dos joelhos, blusa abotoada, soltinha o suficiente para esconder a sensualidade, uma bolsa à tiracolo, uma cesta de palha do mercado de São José, tamanho ofício, carregada de textos mimeografados.
Saiam às ruas, vigiadas por viaturas, cavalos e policiais armados, depois de calorosas assembleias. Numa dessas, no pátio da antiga Faculdade de Filosofia, logo ali, na Soledade, perto da Fratelli Vita, um companheiro da Engenharia chama-a à parte, para avisar que aquele rapaz alto, de cabelos da mesma cor dos dela, bonito, bem vestido, destoando um pouco das vestimentas dos demais, que estava a seu lado, desconfiava-se que ele era dedo duro, pois não participava das assembleias da Escola, não fazia parte de nenhum dos partidos que estavam na luta, e só aparecia em passeatas. Ela nada disse. Fez um sorriso de quem sabia das coisas e voltou para aonde estava. Depois, perdeu de vista o moço bonito.
Naquele dia, a ordem era a de sempre. Bolas de gude escondidas nas bolsas ou nos bolsos para jogar nas ferraduras dos cavalos, caminhando disfarçadamente de dois em dois, três, nunca aglomerados. Alguns passariam pelas ruas avisando o local. Poucos sabiam, questão de segurança. Praça Dezessete. Um disfarçou tanto que apenas dizia, baixinho, Macaco, como se todos soubessem o número dos bichos do jogo. Lá, na Igreja do Espírito Santo, em frente a essa praça, foi celebrada a missa em memória do estudante Edson Luiz, morto em manifestação de rua no Rio de Janeiro. Naquele dia, foi muita pancadaria de cassetete no lombo dos que corriam desabalados pelos corredores estreitos das duas portas de saída da igreja. E lá estava ele, sem palavras, com a segurança de quem não tinha nada a ver com aquilo tudo, o braço acolhedor no ombro da assustada moça. Brigavam tanto em meninos … Irmãos são assim mesmo, porque, no fundo, querem a mesma mãe ou o mesmo pai só para si. Passaram incólumes pelo corredor polonês. A memória não reteve como aquilo tinha se dado. Mas guardou a lembrança de logo adiante, na rua Duque de Caxias, onde continuava a perseguição, ela protegida sob seu braço, ele altivo, suspendendo no ar o cassetete do policial a um simples gesto e palavras ditas com convicção, O que é isso? Estou aqui fazendo compras com minha mulher! O policial baixou o cassetete. Desculpe, doutor.
Quando a Mulher do Sétimo Andar saiu para caminhar, às cinco horas da madrugada, o dia mal começara a clarear e as luzes dos postes, sensíveis à luz do dia, ainda estavam acesas. Dia de domingo. Mesmo não fosse o confinamento, poucos automóveis na avenida. Já cruzara o limite do Pina com Boa Viagem, quando o sol nasceu, inglês na pontualidade, muito diferente na claridade esfuziante. Ela parou para saudar o amante arisco, olho no olho, o que ele só permitia no descuido do acordar, ainda se espreguiçando no meio das nuvens, até recuperar o poder de sua majestade, que não permite mais o olhar dos súditos.
Aos poucos, foram chegando. Pickups com faróis piscando, policiais formando barreiras, motos e cavalos circulando na areia da praia, uniformes feitos para o frio da neve e da geada e não para o calor do Recife, coitados. O cheiro de cocô de cavalo, trazido pela brisa, se sobrepunha ao perfume doce da maresia. Os cavalos do Central Park, em Nova York, enfeitados como se todo dia fosse Terça Feira Gorda, usam fraldas descartáveis. Em sua elegância rica, puxam carruagens que um dia embalaram um romance de dois ministros de estado brasileiros, não nesses tempos de confinamento em casa, mas em outro, de confiscamento das poupanças de ricos e pobres.
Dois dias antes, na Sexta Feira da Paixão, a Mulher do Sétimo Andar havia cruzado apenas com dois velhos conhecidos de caminhada do calçadão, um, que havia sumido por tempos e quando reapareceu foi magro, sem cabelos, triste, puxando uma cachorra pela coleira, envergonhado de dar bom dia para quem já o vira cheio de vida; e o outro, em andrajos, menos velho que alquebrado, seu vizinho no outro lado do calçadão. No Domingo de Páscoa, nem esses. Perigo de assalto, que retornará logo acabe esse confinamento provisório e principie o costumeiro, não havia, a área estava vigiada. Perigo de cassetete ou tiro ou fumaça, também não.
Carregava sua arma, usada nas áreas comuns da fortaleza onde morava e embainhada no cós do short, logo ganhava a rua. Criou as próprias palavras de ordem. Ao ver se aproximar o pseudo inimigo, puxa da máscara na cintura, coloca no rosto e ataca primeiro, Cadê sua máscara? Como que o governo bota vocês na rua, para lidar com o público, sem a máscara de proteção? Minha senhora, colabore com o trabalho da polícia, é proibido circular nessa área. Vocês estão enganados, é proibido para todos, menos para os velhos. Esse é o único privilégio dos velhos nesse confinamento.
E aquela mulher ainda dava graças a Deus de tudo isso não fazer ressurgir um pesadelo de antigamente, ela correndo dos policiais, esvaziando da bolsa as bolinhas de gude que nunca teve coragem de usar, em ruas as mais inusitadas de várias partes do planeta, pois o mundo onírico não tem fronteiras, e acordava, naquele tempo, suada, aliviada de que a ditadura militar acabara e ela já não carecia mais fugir da perseguição policial.