Museu Borodino – 28 de maio de 2020
Para José Hamilton
A cada volta da caminhada madrugadeira, saindo do corredor do sétimo andar e passando pela janela da sala aberta de par em par, a Mulher de Sétimo Andar espiava a jangada saindo para o mar. Um espetáculo que se repete sem cobrança de ingressos aos expectadores do sol nascente. Hoje, observou que os pescadores não tomaram o caminho ao norte, como fazem costumeiramente no verão, mas ao sul. Terão suas razões. Conhecem as ruas e avenidas desse imenso oceano de onde tiram o sustento da família. Sabem onde os melhores peixes em cada época do ano.
Sentia saudades do verão. Mesmo que confinamento não houvesse, aquela mulher seguia religiosamente a recomendação dos homens do mar, que só aconselham o banho salgado a partir de setembro. Como toda sabedoria popular, isso tem uma razão: a partir do mês de março, o mar principia a receber águas doces mais volumosas, carregadas de tudo que os rios trazem em sua viagem ao tempo das grandes chuvas do inverno. Eles chegaram a sugerir ao governo fazer do dia Sete de Setembro a comemoração da abertura oficial das praias. É uma beleza ver nesse dia uma verdadeira festa. Houve até um prefeito que fez isso de bom: domingos e feriados, transportes mais baratos, para que ninguém, menino nenhum, deixe de ter seu divertimento, para o qual também não pagam ingresso.
Houve um Sete de Setembro em que estava no Recife uma amiga de São Paulo, Neide. Viera para um congresso e estava hospedada em um hotel no Pina. Combinaram praia no dia da inauguração. Na véspera, a Mulher do Sétimo Andar dormira em casa com o namorado. Como ela, ele adorava as barracas cheias de gente, a alegria colorida de uma manhã de sol. Naquele dia, além de Neide, de Denis, também vieram ter com eles Sílvio e Carmen, que moram nas proximidades.
Saíram de casa no caminhar leve e descontraído de quem vai tomar sol, banho de mar, uma cervejinha bem gelada. Ao passarem em frente a uma das barracas, ouviram Sílvio ser chamado pelo nome. Era seu Wilson, pintor de paredes. Seu Wilson era um homem negro, magrinho, ágil, um pintor de mão cheia. Chegava ao trabalho sempre acompanhado de seu radio de pilha e ouvia os programas favoritos enquanto trabalhava. Nunca tinha pressa, que sabia inimiga da perfeição. Mas sempre cumpriu os prazos.
Na casa da Mulher do Sétimo Andar, às vezes era o dia de Edinha na cozinha, com quem ele proseava enquanto tomava o café fresquinho que ela acabara de coar, antes de pitar seu cigarro. Ela, ocupada nos afazeres domésticos, discretamente ouvia seus telefonemas. E sabia, pelo tom da voz de seu Wilson, quando era a mulher que estava no outro lado da linha, quando era a namorada. Naquele Sete de Setembro, não carecia ser detetive para saber que era com a namorada que ele comemorava a abertura oficial das praias do Recife.
Um dia, a vizinha, que acabara de se mudar para um apartamento no sétimo andar, pediu a referência do pintor. Serviço concluído, veio agradecer a indicação, dizendo-se surpresa em sabê-lo também especialista em arte. A Mulher do Sétimo Andar também se surpreendeu. E a vizinha, “Pois é, em dúvida onde colocar os quadros na casa nova, seu Wilson logo se prontificou, dizendo que isso fazia parte de seus serviços. Ele quem escolheu o lugar de cada quadro, onde ficavam melhor com a mobília, com a iluminação da casa”. Na verdade, como quem conta um conto acrescenta um ponto, seu Wilson efetivamente era quem pregava os pregos nas paredes das casas pintadas por ele. Porém, depois de marcados os lugares.
Naquele Sete de Setembro, a trupe dos amigos escolheu uma boa barraca com cinco cadeiras e duas sombrinhas, para protege-los do sol ardente das onze horas da manhã. A conversa ia animada, regada à lourinha geladíssima e amendoins torrados e cozinhados. O comércio ambulante ia passando na frente deles, oferecendo caldinhos de todos os sabores, cachorro quente, bronzeador, pipas colorindo a brisa… (No verão da passagem do milênio, Zé Hamilton contou quase uma centena de produtos vendidos nesse comércio ambulante à beira mar). O mesmo conforto do Museu Militar de Borodino, onde o visitante não carece cansar as pernas para ver as cenas da Guerra Patriótica de 1812 na Rússia, que vão passando na sua frente.
E eis que ouvem uma música de Núbia Lafayete ao longe, chegando, chegando devagar. Esbarra bem defronte à barraca onde estão. Semelhava um carrinho de sorvete, de cachorro quente, com uma roda resistente à areia fofa na frente e duas pernas de madeira atrás, para apoiá-lo quando parado. Feria ouvidos acostumados a Mozarts e Beethovens. E como conversa de praia é mesmo para ser levada junto com a brisa, um deles imaginava um carrinho desses a circular entre as barracas tocando música clássica.
Qual o limite entre a vida e a morte? Pois não estão aqui juntos, ela própria, Sílvio, Carmen, vivos bulindo, e os outros, que já se foram? Neide, Denis, seu Wilson, Hamilton.