Emília

4. Como você é bonita, minha filha

 

Quando Emília chegou à casa de sua mãe, no Pina, José estava vestido igual aos meninos da vizinhança: shorts, sem camisa e descalço. Não fez festa quando viu a mãe. Na sala, puxava um caminhãozinho amarrado num cordão, enquanto a avó preparava o almoço. Ao ver a filha chegar de surpresa, Maria Emília correu para abraça-la. José permaneceu onde estava, olhando desconfiado para a mãe. As duas foram juntas levar as malas para o quarto das meninas, onde se sentaram na beira da cama. Maria Emília esbanjava sorriso pelos olhos. José veio se sentar no colo da avó, enterrando a cabeça no ombro dela para não olhar Emília. “É sua mãe, meu filho. Vá pro colo dela…” Aí que José mais enfiava a cabecinha no cheiro de maresia, de alhos e cebolas daquele colo conhecido. Emília, era ver uma menina desapontada sem saber onde botar as mãos. Até que tomou uma atitude e abriu a mala dos presentes.

José olhava agora de esguelha, sem se afastar da avó. Emília desembrulhou o primeiro presente, um caminhão de bombeiros movido à corda, que disparava a sirene e andava sozinho. José pulou do colo da avó e correu atrás. Olhou de novo para Emília, ainda desconfiado. Ela tirou da mala o segundo. “Venha, meu filho, tirar o papel de presente. Esse também é pra você”. José sentou-se entre a avó e a mãe. “Ah! esse cheirinho de lavanda…” Somente ao terceiro presente, José sentou-se no colo da mãe.

– Emília, está na hora do banho dele – Virando-se para o neto – Vamos meu filho, a gente pode levar esses peixinhos para tomar banho na banheira junto com você. – Voltando-se de novo para Emília, que acompanhava os dois na direção do banheiro – Depois que ele pegar no sono, a gente tem ainda um tempinho até as meninas chegarem do colégio. Quero saber tudo da viagem, Emília, por que você voltou tão cedo… Quero saber tudo tudo. Tive sonhos ruins, mas sempre suas cartas me acalmavam. Até que você parou de escrever.

Maria Emília era a mais bonita das quatro irmãs. Uma negra alta, esguia, de corpo magro, pernas bem torneadas, ancas, bunda e peitos na fartura. A filha herdou tudo e acrescentou uns olhos verdes de mar. A mãe olhou bem para Emília, dos pés à cabeça, com o mesmo olhar com que vislumbrou a filha aos treze anos de idade, e disse, “Como você é bonita, minha filha!”

Emília recordou um dia de maio, nos prenúncios do inverno de 1954. Boa Viagem era lugar de veraneio de ricos: usineiros, comerciantes, senhores de engenho. E o Pina, bairro de gente pobre. Na praia, jangadas de pescador. Nas ruas estreitas, casas desordenadas. Esgotos a céu aberto. Meninos soltos na rua, como se tudo fosse um grande quintal. Aquele dia estava nublado, ameaçando chuva.  E ela, com a empregada da casa de seus pais adotivos, a caminho de conhecer a mãe verdadeira. “Por que a senhora me enjeitou quando eu não tinha nem dois anos? Por que?” “Você ficou uma moça bonita, minha filha. Não fique assim desconfiada comigo. Você nasceu com uma doença no coração. Quando chorava, ficava roxa, parecia que ia morrer. O médico disse que existia um tratamento, mas eu não tinha dinheiro para pagar. Fui cozinheira na casa de teus pais de criação. Eles não tinham filhos. Você era uma bebê linda! Levei você lá, e te aceitaram para criar como filha.”

Emília se sentia agora aterrissando de outro planeta. Aquela semana confinada com Pantélia fora um sonho, do qual acordava ali, junto da mãe e do filho.

José usava o mesmo berço que fora levado do apartamento do Espinheiro para a casa de Maria Emília no Pina. Não tinha mais o costume de dormir se balançando na rede. A avó colocou-o deitadinho de lado, voltado para a parede, onde havia um móbile pendurado. José desfiava com os dedinhos da mão direita a ponta da fralda amarrada na chupeta deliciosamente na boca. Quando Maria Emília já baixava a mão para embalá-lo, a uma cantiga de ninar, Emília parou o gesto dela no ar e fez as vezes. E sentiu o acolhimento do filho, como o de quem reconhece impressão digital.

– Minha mãe, vou contar tudo – disse Emília –, mas antes a senhora vai prometer não ficar com pena de mim.

Estavam agora de volta ao quarto das meninas, sentadas na mesma beirada de cama, com as maletas espalhadas. José ficara dormindo no berço, ao lado da cama dos avós. Emília relatou toda a viagem aos Estados Unidos. Omitiu a semana no Brejo de Gravatá. (Pantélia ficaria para sempre um segredo na sua vida, revelado apenas a Josué, muito tempo depois.)

Maria Emília cumpriu o prometido e não se compadeceu da filha. Talvez induzida pela maneira como Emília contou, ressaltando mais a cura que a doença. Não se demorou nos dias e dias internada em hospital, com companheiras de quarto desconhecidas; na solidão de uma UTI; no medo da morte. Mas estendeu-se no inglês que aprendeu, na descoberta dos romances de Faulkner, nas histórias que inventou a cada carta enviada a ela, ao pai e à amiga Maria. Quando falou nas cartas, a mãe levantou-se da cama de um pulo. “Já volto, Emília”. E retornou do quarto onde dormia José com todas as cartas, nos respectivos envelopes, amarrados com um laço de fitas cor de rosa. “Posso ficar com elas para mim, Maria Emília?”

– Claro, minha filha. São tuas. Sabe, Emília? Deus escreve mesmo certo por linhas tortas. As vezes a vida nos prega peças. A gente acha que vai seguir numa direção, e, zás, acontece algo imprevisto, algum acaso, e a vida da gente muda de rumo. Você tem duas orixás poderosas na sua proteção, minha filha. Mesmo você não tendo feito as obrigações de filha de santo, não é por isso que elas vão te deixar desamparada. Fique atenta aos sinais.

Ficaram as duas pensativas, enquanto Emília procurava na mala os presentes da mãe, das meninas, de Marcelino … Quando vê a mãe, em sobressalto, colocar a mão na testa, como quem se lembra de alguma coisa.

– Valha-me Deus, já ia me esquecendo! Foi tanta emoção em te ver assim de repente… Tua tia Nenê anda doidinha atrás de você. Faz uns quinze dias que mandou recado, que era para eu ir lá, urgente, para um assunto que tinha a ver com você. Eu, que já andava com maus pressentimentos, corri lá no dia seguinte. Então ela me falou de um sonho, de um caderno, e que carecia te ver antes da próxima lua cheia. Fiquei em dúvida, se deveria te escrever ou não. Você tão longe… Ela não me disse o que tinha escrito no tal caderno, que só a você poderia revelar. Você tão longe… Não queria te aperrear. E, veja como é a vida: você chega de repente, antes da lua cheia.

– Faz quinze dias, desde que estive no Janga com Nenê, que essa história me persegue. Graças a Deus, Emília, você chegou! Um lado meu pedia para eu deixar você em paz com seus estudos. Mas outro lado meu dizia que, nesse pedido de Nenê, poderia haver mandado dos Orixás. Passei dois anos sem deixar tua avó te trazer de volta para nós. Hoje me arrependo. Não queria ter outro motivo de arrependimento, que acontece quando a gente contraria desígnios dos orixás. E terminou que o destino, talvez traçado lá em riba, trouxe você de volta. Você quer ir lá amanhã bem cedo?

A filha observava a mãe. Maria Emília parecia outra mulher, enquanto falava com tanta desenvoltura. Esse sempre fora o lugar ocupado pela tia Nenê. Além disso, a mãe usava um vestido branco, e aquele dia era uma sexta feira, dia de homenagear Oxalá. Será que ela assumira o lugar da irmã no Candomblé?

 

 

 

Logo ao chegar, Maria Emília levou as duas filhas e o neto para um banho de mar e deixou Emília sozinha com a tia, que estava deitada com a janela do quarto fechada para curar uma enxaqueca.

– Quando sua avó estava muito doente, já não atinava coisa com coisa. Sua tia Ceiça, que cuidou dela até o fim, gostava de deitar mãe na rede do terraço. Você se alembra, Emília? Era o lugar da casa que sua avó mais gostava, espiando o mar. Então ela pedia a Ceiça para armar a outra rede. E ficava proseando com você.

Era a segunda vez que a tia consolava Emília. Sentou-se na cabeceira da cama, deitou a cabeça da sobrinha no seu colo e ficou fazendo cafuné, até vê-la acalmar o peito. A notícia da morte da avó lhe chegara algumas semanas antes, por uma carta da mãe, quando Emília se recuperava no hospital em Boston. Mas naquele dia ela não chorou. Para chorar, a gente carece de estar só, ou acompanhada de quem pode compartilhar a tristeza. No quarto do hospital, sua cama ficava entre duas estranhas.

– Às vezes sua avó ficava agitada, queria se levantar da rede para tomar o navio e voltar para a África. Minha mãe só sabia da África que existiu lá a bisavó dela, Dallá, destinada a ser rainha, e que veio cativa num navio para o Brasil. Sabia que era de lá a nossa religião. E sabia das palavras sagradas de nossas cantigas para os orixás. Até morrer, a velha Emília acalentou o desejo de um dia tornar à África.

– Foi com você, Emília, que tua avó esteve nos devaneios de moribunda. “E eu tão distante, numa enfermaria de hospital. Quem sabe, apenas a minha avó sabia de mim e ficou lá me fazendo companhia? Teria deixado comigo sua alma negra?”

– Pedi pra Maria Emília mandar te chamar porque tive um sonho com mãe, ela na agonia da morte, falando da África, dos navios. Nesse sonho, aparecia o caderno onde um dia ela tinha pedido para eu escrever uma carta. “Para quem, mãe?” “Vá buscar o papel, Nenê”. Eu não tinha papel de carta em casa. Fui ver no quarto dos meninos, das meninas… Encontrei um caderno velho no armário de Josué, que ele deixara sem nada escrito, quando sumiu no mundo com destino a São Paulo.

– Quando voltei com o caderno, mãe ditou umas palavras que eu assentei do jeito que ela falou. Depois ela começou a entrar em agonia. Já era a agonia da morte. No sonho, ela me disse que era para você ir para a África levando aquele caderno, que dizia o que você deveria fazer lá.

Emília começava a pensar que o caderno, o sonho, era tudo fantasia da tia que, segundo Maria Emília, andava variando da cabeça desde a morte da mãe. “E cadê o caderno, tia Nenê?”

Nessa hora a tia riu, vendo uma certa descrença no olhar da sobrinha. Virou-se de lado e pegou o caderno embaixo do travesseiro. Emília segurou-o, já sem a capa de trás, as folhas amareladas. Deixou-se ficar com o caderno na mão, sentindo o cheiro de guardado. Nele só havia três palavras: África; Cachéu; Alabi.

Emília se acordou no dia seguinte com o primeiro galo, ainda escuro. Foi caminhar. Depois, sentou-se numa jangada. O sol principiava a clarear o céu e os pensamentos. Quando a bola de fogo subiu pelo mar, Emília já havia decidido. Sim. Iria para a África. Por mais estranho que fosse uma pessoa ter renunciado a uma carreira de jurista formada por Harvard, para cumprir um mandado dos Orixás.

(Continua no próximo domingo)

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