Diário do Pina

Pés descalços – 24 de outubro de 2020

Sexta feira é dia de música. Pela música, vale até perder a Aurora do dia seguinte. Acordo às 5:30, atrasadíssima. O mar está seco. Antes de ir à praia, tomo água, molho as três plantinhas que estão tomando sol desde antes de mim, abro a janela para elas tomarem também a brisa, borrifo, como fosse um sereno atrasado. Elas agradecem. Uma pimenteira de biquinho, um mini jasmim, e uma pobrezinha transplantada do Brejo, onde floria em azuis e aqui trocou o azul pelo verde esmeralda do mar, até acabar seu florir. Resiste bravamente, em talos que vão encompridando em folhas do tamanho da mão espalmada de uma criança de cinco anos. Paciência, me diz ela, para florir em azuis, brancos, rosas, careço dos ares frios da montanha e não dessa maresia. Mas segue em verde bandeira bonito, folhas novas nascendo, expulsando as velhas que amarelecem. O processo natural da vida.

            O século XXI é o século do Pet. Na verdade, sempre foram boa companhia para os humanos. Quando meus filhos eram pequenos, encafifei com a ideia de morar em casa. A princípio, com grande resistência de Zé Hamilton, comecei a procurar velhos sobradinhos da Vila Madalena, perto da feira. Emília conseguiu a façanha, eu não. Tive melhor sorte. Se é para morar em casa, Teresa, vamos construir, falavam palavras engenheiras e objetivas. E assim foi. Os meninos logo se afeiçoaram a um Husk Siberiano, que passava o dia na área da garagem da casa de Clara, a vizinha de muro. Ficavam lá tempão, fazendo agrados em Téo, que, sem cerimônia, achegava-se aos vãos da grade. Carlos, namorado da filha de Clara, estava se mudando da casa dos pais para um apartamento e procurando alguém para doar a Husk Siberiana dele, não por acaso chamada de Carla. Naquele natal de 1985, como fosse um presente de Papai Noel, Carla veio morar conosco. Na nossa casa pariu duas ninhadas de cachorrinhos. São desse tempo as melhores fotografias dos meninos. Meses depois de Carla lá em casa, meu filho me disse, sério como costumava ser, Minha mãe, não preciso mais ir para a tia Maria Luiza. Já tenho a minha cachorra. Não neguei à psicóloga o motivo da suspensão do tratamento de ludoterapia.

            Dou-me bem com a solidão. É a melhor companhia que conheço. Mas andei repensando. A gente tem que se adaptar aos tempos, como me adaptei à tecnologia possível aos de minha geração. Em apartamento, seria um gatinho. Uma gatinha, melhor dizendo, como tive nos tempos da Casa de Aldeia. Uma Mimi. Desejo frustrado ao primeiro empecilho: teria que colocar tela nas janelas, alertou-me uma amiga que cria gatos. Tela? Jamais. Só um neto me levaria a tanto, sabendo que seria provisório, pois netos crescem. Mas hoje me dei conta de que já tenho na verdade dez pets. Uma palmeira ráfia, uma samambaia, que tomam água uma vez por semana. Um mandacaru, um facheiro e um gravatá minúsculos – ah, Sertão! –, economizadores de água por natureza, “Me borrifar, dona, uma vez por semana que me baste”. Os três que tomam mais sol pedem água todo santo dia: o jasmim, que vem florindo e fazendo cheirar meus entardeceres; a pimenteira em frutos verdes e vermelhos, para proteger a casa do mau olhado; e a bichinha da hortênsia sem flores, mas que, mesmo assim, encanta a vista. São meus pets. Sim, faltou contar os outro dois, a castanhola e o coqueiro. Esqueci de quem os primeiros. Estão no espaço público da praia, aos cuidados do sol, das chuvas, das intempéries. A natureza praieira é deles. Crescem, que benza-os Deus.

            Mas outro dia tive uma ideia maluca. Espero que não vingue. Ora, se se coloca um pobre husk siberiano, que, em São Paulo, em um quintal, já trocava de pelo mais vezes do que no seu natural na Rússia, imagine esse coitado num apartamento do Recife? Vejo a cara triste deles na coleira de seus donos, passeando no calçadão. Será que uma sabiá numa gaiola, para acordar junto comigo às madrugada, para bicar com carinho minhas mãos ao trocar as bandejas, colocar alpiste, água? Pecado menos grave do que aprisionar um cão grande em um espaço limitado, longe do chão de terra, das florestas, de seu habitat. O meu passarinho ficaria no lugar onde é hoje uma escultura em ferro de um artista de Bichinho, com dois peixes eternamente se beijando na boca. Vejam em quão nobre espaço da casa ficaria a minha sabiá! A parede mais clara, que recebe mais sol pela manhã, com vista para os coqueiros, as amendoeiras, o mar, o céu, os pombos voando soltos. Tudo é relativo. “Furaro os óio do Assum Preto, pra ele assim, ai, cantá mió (…) Mil vez a sina de uma gaiola, desde que o céu, ai, pudesse oiá” (Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga). E os eunucos? Pela beleza, pela arte… A arte tem precedência sobre a vida? Goethe, o maior entre os grandes, dizia. Essa, talvez, a grande questão filosófica do século XXI: a liberdade do ser vivo.

Mas por favor, não, não me venham com argumentos e discursos. Vocês venceram.

A caminho da praia, vejo que tanto a castanhola Emília quanto o coqueiro Josué agradeceram as chuvas dos dois dias passados. Josué está com uma palha novinha em folha despontando. E Emília risonha, firme, já adolescente, enquanto Josué tem sofrido mais para crescer.

Já na areia, caminhando, cruzo com outros, a metros de distância um do outro, portando máscaras. Com essa brisa, meu? Como os véus de antigamente, que as mulheres colocavam na cabeça para entrar numa missa. Os homens, ao contrário, descobriam as cabeças. Um credo. Alguns olham com maus olhos a pecadora.

Andar com os pés descalços. Reaprendo. A escoliose já não reclama. Caminhar sem pressa pelos riachinhos formados do lado de cá das pedras – os arrecifes que batizam a minha cidade. Onde os meninos pequenos podem brincar sem medo do papafigo do século XXI: o tubarão. Ao final da caminhada, as primeiras barracas coloridas nas areias do Pina. Moacir ainda não abriu. Tenho até crédito ali para consumir fiado. O corpo pede banho salgado. Deixo sandálias, chapéu, óculos escuros e vestido numa espécie de península, entre os riachinhos rente às pedras por onde fui caminhando, e uma das piscininhas filhas do Buraco da Velha. Há uma pessoa lá tomando banho. Vejo a fundura da água na cintura dele. Tem pedra aí? Não escuto a resposta, mas vejo o menear de sua cabeça. Mesmo assim, há que tomar cuidado. Já dei topada em pedra onde menos se espera. Água friazinha. Primeiro, me persignar molhando os dedos na água benta. Depois, o primeiro mergulho. Natação, hidroginástica, deixar a espessa água segurar o corpo olhando as nuvens andando em um céu muito azul. O homem tenta puxar conversa. Finjo que não ouço. Detesto prosa em certas ocasiões. Uma vez uma amiga, Vamos nos encontrar para caminhar? Estragou a caminhada. Não apenas porque era chata, dessas pessoas que puxam a gente para baixo. Mas porque na música e na natureza gosto de estar só comigo. Meu lado autista. A voz humana é muito pobre para concorrer com o murmúrio do mar ou de um violão. Pisar em areias fofas, areias molhadas, areias formando um minideserto no fundo do oceano, o tapete verdemusgo dos sargaços, o cheiro inebriante dos sargaços.

Pelo tanto que já brinquei na água salgada e pela posição do sol, sei que está na hora de voltar pra casa, tomar o café da manhã, principiar o dia. Lembro que vou entrar novamente na fortaleza onde moro e nela preciso repor a máscara até entrar em casa. Só então me dou conta que esquecera de retirá-la do pescoço antes de cair n’água. Tiro a bichinha, torço bem. Não adianta. Não dará tempo de secar, por mais que o sol das sete horas da manhã do Recife já esteja inclemente. Vai assim mesmo, sufocando-me ainda mais.

E entrou por uma perna de pinto e saiu por uma perna de pato…

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