De cavalos 

“Existe uma história zen sobre um homem e um cavalo. O cavalo está galopando rapidamente, e parece que o homem que o cavalga se dirige a algum lugar importante. Outro homem, em pé do lado da estrada, grita: ‘Aonde você está indo?’ E o homem a cavalo responde: ‘Não sei. Pergunte ao cavalo!’

Esta é a nossa história. Estamos todos sobre um cavalo, não sabemos aonde vamos e não conseguimos parar. O cavalo é a força de nossos hábitos que nos puxa, e somos impotentes diante dela. Estamos sempre correndo, e isso já se tornou um hábito. Estamos acostumados a lutar o tempo todo, até mesmo durante o sono. Estamos em guerra com nós mesmos e é fácil declarar guerra aos outros também”.

Gosto de parábolas. Gosto de aforismos. Na terceira leitura de Grande Sertão Veredas, anotei para mais de vinte aforismos, somente até a página 85 do livro. E publiquei-os como “Aforismos de João” aqui mesmo, neste blog. Trago para cá apenas o que se refere a cavalo. “Cavalo que ama o dono, até respira do mesmo jeito”.

Também gosto de mitos, todos os mitos. Houve uma época, quando ainda morava em São Paulo, em que frequentei festas de Candomblé, consultei os búzios, e lembro até de uma sessão de terapia em que Therezinha me perguntou, meio de brincadeira meio à sério: o que diria o Pai Alabi dessa situação?

Na mitologia do candomblé, o cavalo tem uma posição de destaque. Diferente, tanto do submisso cavalo de Guimarães Rosa, quanto do cavalo da parábola (será que posso chamar assim às pequenas histórias da sabedoria zen budista?) com que abro esta crônica, em que o cavalo avulta sobre o homem.

O mais bonito numa festa de terreiro, para além do colorido das vestimentas e do batuque irresistível dos tambores, é o momento em que baixa o orixá. Há uma transubstanciação, tal como a que ocorre no momento sublime de uma missa católica (com outro significado): O filho de santo torna-se cavalo para ser montado pelo dono de sua cabeça. E nesse momento, ele se torna o veículo de transporte da divindade para a terra. Vive, no transe, a divindade de seu orixá.

O orixá de cada pessoa é a sua identidade mais profunda com os elementos da natureza, que são os mais próximos do seu “ser quem se é”.  Cada pessoa carrega na sua personalidade esse “ser quem se é”, que vai sendo apagado por outro cavalo, aquele da parábola zen budista, que é a força de nossos hábitos.

O momento em que baixa o santo, é o momento sublime para quem o recebe, que dança a dança de seu santo, vive intensamente o seu eu interior, rasga a fantasia.

Talvez os filhos de santo dos terreiros de Candomblé careçam menos de fazer terapia ou análise do que nós, pobres mortais.

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