Lutador

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Terça feira, 04 de abril de 2017

(postado em 03 de fevereiro de 2018)

Hoje, na caminhada madrugadeira, alcancei a última jangada saindo para pescar. Os rolos de canos que lhe servem de trilhos eram manuseados por três homens, que a empurravam da areia ao mar. Um deles não é pescador. Porém jamais falta à saída das jangadas. Está sempre a postos, ajudante, igual um servente de pedreiro. Melhor: um funcionário da estação e não maquinista do trem.

Dois seguiram ao alto mar. Ele permaneceu em terra. Às vezes o encontro correndo, com seu boné com a aba para trás, a desafiar os raios solares em uma pele do corpo e sola dos pés curtidos. Tem estatura média, musculoso, o corpo ligeiramente inclinado para a frente e as pernas arqueadas de cavaleiro. Os outros o chamam lutador. Não sei seu nome. Como aqui não reproduzo entrevista, devaneio sobre uma que nunca houve.

– Por que me chamam de lutador? Já fui. Mas tomei uma porrada na cabeça e mexeu com o meu juízo. Não quis mais lutar. Perdi o gosto. Gosto de correr, como fazia no meu tempo de lutador, em treinamento. Pegue aqui no meu braço, moça, no músculo. Tenho sessenta e seis ano e esse é meu orgulho: meu corpo arresponde por um menino de trinta. Mas a barba e os cabelo tão aí pra mostrá o velho.

Fui chegando aqui, mais o povo da pescaria, e eles só me chama de lutador. Tem também outro homem que não é pescador e faz o mesmo que eu. Sempre precisa de gente na hora de embarcar. Fui ficando. Quem cuida dos rolo de empurrar as jangada sou eu. Eles conta com eu pra tudo.

Já fui ao alto mar, sim senhora. Mas isso, dona, tem ciência que passa de pai pra fio. Não sou do mar.

Se eu fosse rico, com a idade que tenho, ainda ia correr mundo. Ir pro mar atrás de peixe pra ganhar a vida? Não. Isso não é pra mim não senhora. Ir e voltar todo dia? Uma latomia. O que eu queria mesmo era pegar um navio desses grande, igual àquele que nós tamo vendo no alto mar. Viajar longe, os prazer todo do mundo que a gente pobre aqui nunca viu, não sabe o que é. Só pode ser bom.

Não tenho famia não senhora. Tem uma moça ali de trás que às vez passa por mim e me pede benção. Eu dou, não vou negar. É Deus quem dá. A mãe diz que ela é minha fia. Porque eu vou dizer uma coisa, dona moça, que sei que a senhora, pessoa de muita leitura, não vai inguinorar: eu só gosto de puta.

Aqui nesse Pina a minha força e disposição tem muita serventia. Meu dia começa, bem dizer, com os pescador. Minto. Começa na cama. Antes da muié pegar no sono, acendo um baseado. Nós fuma e nós fode. Essa bichinha com quem drumo agora me cativa. A peste ruim sabe botar os arreio, sabe dos agrado que home gosta. Eu não troco esses agrado por cachaça, como já fiz uma vez na vida. Foi quando mãe morreu. Aquilo me deu uma infelicidade e eu garrei a beber. Mas passou. Cachaça tira as força do home. E eu vou dizer uma coisa pra senhora, dona, esse é meu orguio na vida: minha força de home. Pro trabaio. Pra muié. Só fraquejei no tempo da cachaça, que não durou nem seis mês. A muié chegar a me mandar tomar a azuzinha? Foi aí que ela me pegou. Parei de beber. Fumar, graças a Deus, nunca fumei. Só o baseado, que esse é de lei: não tira minhas força pro trabaio e anima as brincadeira na cama. A muié gosta. E não falou mais em azuzinha, que isso é lá pros nego brocha que passa na cama dela.

 

 

 

Um comentário em “Lutador

  1. Esse está interessante. Mas eu acho inverossímil. Não saberia explicar porque, pois estou em ambiente totalmente diferente. Mas fato é que, pelo menos para mim, soou falso. Sei lá. Será que falam desse jeito? Será que iria se jactar assim das diferentes forças? Exagerado, caricato. E será mesmo que ajudante de jangadeiro iria gastar dinheiro com essa tal pílula?

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