Viva a vida, essa menina!

A Mulher do Sétimo Andar voltou a escrever. Aconteceu na manhã de um sábado. Ela não sabia bem se tinha lido a frase nas suas correspondências de whatsapp e e-mail, ou se a ouvira no sonho com o qual se acordou naquele dia. Sonhara com uma amiga muito querida que estava sendo festejada. Ao abrir os olhos e sair do mundo onírico, onde vivemos uma vida secreta, já não se recordava qual o motivo da festa. Mas o mantra aparecia como manchete de jornal: Viva a vida, essa menina!

            Então pensou que aquele era um dia especial. Havia seis meses, andava tateando na escuridão: sucumbira ao baixo astral que assola o país. Naquela manhã, ela via uma luz no fim do túnel. Tomou um banho morno, protegeu a pele do rosto dos raios solares, sentou-se ao computador e principiou a momentear.

            Havia enfrentado com galhardia o primeiro ano de confinamento pela pandemia. Ao final de dois mil e vinte, porém, a Mulher do Sétimo Andar sentiu pela primeira vez um desespero por estar sozinha. Deu-se conta que aquele era o primeiro ano de sua vida em que estava só, nas festas de dezembro. Lembrou-se de que já passara por um sofrimento igual àquele, chamado depressão, uma vez na vida. Sabia da vontade de não sair da cama ao acordar, da falta de vontade de viver. Igualmente sabia o caminho das pedras e seguiu em frente.

            Pelo caminho foi buscando companhia. Por que não? Fazer como todos: adotar um pet a quem chamaria de filho ou filha e o criaria como tal. No fundo, no fundo, ela sempre se perguntou: será que os humanos perderam a capacidade de se amar, se agarrar, se beijar, se tocar? Será por isso que precisam buscar prazer de convívio com os animais? E isso só se aprofundou na pandemia, mas vinha de longe.

            Deixou essas questões de lado e iniciou seu périplo em busca do pet. A primeira ideia foi um gato. Gato seria perfeito: não condicionaria suas caminhadas às necessidades fisiológicas dele, é um animal mais independente do que o cachorro, adapta-se bem a um apartamento. Aí surgiu o primeiro e decisivo obstáculo: haveria que colocar tela nas janelas. Como? Atrapalhar sua vista do Oceano Atlântico? Jamais. Só um neto a obrigaria a tanto. Partiu então para o cão. Choveram sugestões e estímulos de todo tipo por parte de parentes e amigos do whatsapp. Quando já tinha escolhido uma linda cadelinha vira-lata, a quem, só olhando as fotografias, dera o nome de Mel, depois mesmo de ir conhecê-la na casa de uma simpática mocinha, dessas que dedicam a vida a cuidar e defender os animais, depois até de marcar um dia para ir buscá-la…

            Bateu a dúvida. Pois o dia seguinte amanheceu chovendo muito, aquela chuvinha intermitente do inverno recifense, de ruas alagadas, bocas de leão entupidas acumulando água na beira das calçadas. Ela se deitou na rede, o melhor lugar da casa para tomar decisões importantes. A decisão foi rápida. Não adotaria a Mel. Ainda consultou o filho mais velho, que mora em uma casa com ampla área externa. Será que ele não gostaria de adotar a cachorrinha? Não, não gostaria. Abortou então o plano de adoção de pet.

            E um sabiá numa gaiola? Sabia onde buscar. Chegou a escolher um lindo, branquinho (coisa rara em sabiá), cantador. Chegou a desalojar a paisagem de Humberto Magno para outra parede da sala, deixando aquele espaço com vista para o mar para a gaiola de Vivaldi. O sabiá também já havia sido batizado. Mas então pensou em quando o filho mais novo, que mora em São Paulo, viesse para as festas de dezembro. O quanto ele iria se contrariar. Afinal, ela mesmo preferia não ver que estava violentando a natureza, mas o filho seria implacável. Pronto. Voltou à estaca zero a Mulher do Sétimo Andar. Desistiu de vez de adotar quaisquer animais.

            Ela estava na fase do sabiá, quando descobriu de repente, depois que acordou com aquela frase na cabeça, “Viva a vida, menina”, que estava curada da depressão e já poderia voltar à sua solidão, que lhe era tão cara, com a lista infindável de autores para lhe fazer companhia. Que já poderia voltar a escrever.

Ah, como havia sido triste os seis meses sem escrever! Para aquela mulher, ficar sem escrever era como se lhe faltasse um pedaço de pulmão para respirar.

E assim, ela retornou à escrita naquela manhã mesmo de um sábado invernoso, que foi ontem. Não ao planejado segundo romance, que estava igual a carro velho, emperrado numa ladeira. Mas sim às leves crônicas domingueiras.

7 comentários em “Viva a vida, essa menina!

Deixar mensagem para Cecilia Cancelar resposta