Um tributo a meu marido

Rua Cravinhos, esquina com a avenida Nove de Julho. Dali, saindo a pé, havia uma feira, onde descobri que caqui não era tomate maduro, e as flores de Alcachofra não serviam apenas para enfeitar vasos enormes, mas também para comer com um bom vinho de companhia. Dali, pela rua Oscar Freire, chegava-se à rua Augusta, coitada, tanto decaiu quando principiou a era do comércio confinado. Minha mãe, aos sessenta anos, nas visitas a São Paulo, ainda fazia esse percurso com a mesma alegria com que explorava a rua Nova e a rua da Imperatriz no Recife.

Aos sábados, nesse nosso primeiro lar em São Paulo, almoçávamos aos vinhos chilenos. No sofá da sala, as taças continuavam nas nossas mãos, numa prosa de saudade. Aqueles olhos verdes… Pela imensa janela viam-se prédios, e o chão do apartamento parecia tremer à passagem dos ônibus pela avenida. E Zé Hamilton, com ares de Antônio Conselheiro: “Eu quero o mar! Eu quero o horizonte!”

São Paulo é uma amiga reservada, de quem a gente só começa a gostar depois de conviver com ela por três anos. Pelo menos. Que anos difíceis aqueles primeiros da década de 1970… Ditadura. Amigos presos, desaparecidos, mortos. Porém a vida seguia, malgrado. E o sol, tão encoberto pela poluição da atmosfera paulistana, fazia a vida renascer a cada aurora.

A gente gosta de uma cidade menos pelo que ela é do que pelo que nela vivemos. Em São Paulo nós dois construímos uma família, educamos nossos filhos, fizemos nossa profissão e muitas amizades. Nesta cidade vivemos nosso amor.

Pensei mesmo que havia feito essa viagem a São Paulo, na reta final de uma longa quarentena, para assuntos comezinhos da vida, em consultórios médicos e dentista. Não. Em 26 de julho de 2021, numa manhã fria e ensolarada dessa cidade, que só perde em meu coração para o Recife (porque, afinal, a paixão pela cidade das águas tem um quê de eternidade), descubro que vim cá rever as ruas, as praças, os parques, a rua Tingui. As cidades guardam nossa memória.

Vim rever os amigos. Amigos que são meus e foram nossos. E vi tão poucos… A vida às vezes é assim. Os assuntos comezinhos passam à frente do que realmente importa. Vir a São Paulo é estar com esses amigos. É estar com o filho Pedro, que aqui ficou e recomeça seu próprio ciclo de família, trabalho, amigos… Memórias vivas, latejantes.

Rua Tingui, 273. A construção da casa, a festa da cumeeira, as festas, quantas festas! São João, Natal, aniversários, ou um simples almoço aos domingos.

Por muitos anos não quis ver. Dessa vez, criei coragem e fui. Os janelões de freijó, feitos por um marceneiro espanhol de sabida competência e arte; a porta da frente da casa, de Cedro, esculpida pela nossa sobrinha Naia e Moacir. Tudo substituído pela frieza do aço. Aí pensei. Uma pequena fagulha, frente ao imenso incêndio provocado pelo capitalismo financeiro que derrubou os casarões da Avenida Paulista.

Um dia, chegando à casa do trabalho, encontrei, sentados no sofá e poltronas da sala o Hamilton, o primogênito Miguel e nosso sobrinho Marcus. Os três estavam em perfeito silêncio. Hoje compreendo que o diálogo entre eles não carecia de palavras. Hoje compreendo tanta coisa que não sabia… Hoje conheço melhor Zé Hamilton. Acho mesmo que gosto mais desse homem hoje do que ontem.

6 comentários em “Um tributo a meu marido

Deixar mensagem para Janete Lins Cancelar resposta