Diário paulistano 12 de dezembro de 2021

Ouço pela janela do meu quarto ruídos de construção civil, como fossem combates num campo de batalha. A cidade cresce para cima trepada em cimento tijolo e aço. Só na Cristiano Viana, entre a rua Arthur de Azevedo e a avenida Rebouças, três espigões em plena idade de crescimento. Caminho a pé no bairro de Pinheiros. Calçadas do Recife.

            Encerrei meu livro “Agreste, Agrestes” (1982) com a declaração do velho Antunes Gomes: “o coração do Brasil é São Paulo, é ou não é?”. Seu José era um sitiante de Garanhuns, a quem entrevistei em sua casa, em São Paulo, depois de ter gravado depoimentos com seus parentes que permaneciam morando no Agreste. A imagem de São Paulo como o coração do Brasil se renova a cada vez que venho a essa metrópole para matar as saudades. Esse coração é de outro país, construído, diverso do Coração do Brasil visto pela câmera de Daniel Santiago. Construído pela diversidade de gentes que foram chegando daqui e dali, de além-mar.

            Os passarinhos de cá, que não adormeceram com o coaxar dos sapos, despertam mais cedo que a madrugada dos operários. Duas horas, principiam a cantar. Como a enunciar vamosembora gente, que a noite não é nada. Sabem que às sete horas em ponto terá inínio o Pápápápá… pémpémpémpém… a geladeira contracena aqui na cozinha. Daqui a pouco vou tomar meu café da manhã. One more day in my second city.

            Talvez seja esse ar grandiloquente de São Paulo crescendo, o barulho ensurdecedor de tratores, máquinas potentíssimas para levantar gigantes, talvez seja isso que me dá o mesmo fascínio de Nova York. O ritmo de São Paulo é um. O do Brasil é outro.

            Caminhar no Parque do Povo. Simbólico da distorção brasileira entre o que se nomeia e no que resulta. No cruzamento da Avenida Brigadeiro Faria Lima com a Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, jovens executivos caminhando apressados, profissões de muitas finanças, uma certa alegria dos bem sucedidos; o entorno do Itaim Bibi na hora do almoço. A Rodovia Castelo Branco. Isso é São Paulo.

            Aí me lembrei do filme Mariguella. Dessa vez vim a São Paulo sem nenhum objetivo prático, “tipo”, dentista (que horror, usando esse insuportável jargão juvenil). Vim apenas porque recebi um convite para um jantar, no qual o anfitrião me oferecia, caso eu aceitasse o convite, flores, banda de música e foguete. Aquilo me despertou tamanha fantasia, que não resisti: no mesmo dia comprei o bilhete aéreo para duas semanas em São Paulo. Como se aquele convite viesse carregado de sugestões. Sim. Duas semanas para estar com os amigos velhos, para lamber a cria, para alimentar o espírito com a arte. Valeria se fosse só para ficar uma hora inteira sentada defronte e especulando de perto Cícero Dias espiando o mundo pelo Recife.

            Como enriqueceu minha compreensão desse formidável filme as prosas com os amigos… Sem nenhuma intencionalidade, Mariguella ficou sendo a palavra de ordem que entrou em todas as boas rodas de conversa. Os de minha geração vivemos aquela história de alguma forma. Independentemente do julgamento crítico do filme, ele nos toca em nervos sensíveis.

            Encerrei meu passeio em Sampa caminhando pela Avenida Paulista num sábado ensolarado. A Avenida Paulista de todas as raças, de todos os credos.

2 comentários em “Diário paulistano 12 de dezembro de 2021

Deixar mensagem para Maria Vasconcelos Cancelar resposta