Um sábado no calçadão

Às cinco da madrugada ela começa a se espreguiçar na cama, o quarto ainda noite pelas pesadas cortinas. Ficar na cama depois de acordada, já sabia de longa experiência, é certeza de caraminholar. Vamos, mulher, coragem. Passa uns segundos sentada na beirada da cama para acostumar a vista ao escuro, e só então, cautelosamente, calça o chinelinho velho e confortável. Perde tempo em homenagem à preguiça, indecisão se noite ou dia… quando abre as cortinas e o sol já brilha. Ele já havia se despedido do banho matutino nas águas do Atlântico, quando ainda permitia que olhássemos diretamente na sua cara risonha.

            Abre a janela de par em par. Deixa entrar o sol e a brisa das madrugadas recifenses. Posta-se em pé na janela, uma perna descansando e a outra firme, espiando o mar. O sol se escondeu entre nuvens, e o oceano não está mais em seus bonitos coloridos de verde esmeralda e azul marinho. Porém, por um ou dois minutos, não há carros na avenida. Ela ouve o murmúrio do mar. Como se não existisse nada além de sua janela e a praia.

            Paramenta-se para sair. Eram cinco e meia quando principiou a caminhada pelo calçadão. Foi durante esta sabatina caminhada, que a Mulher do Sétimo Andar começou a ter umas ideias estravagantes.

            Pensou em ser prefeita do Recife. Como se para isso fosse preciso apenas o toque de uma varinha de condão, sem eleições, sem partidos, só um desejo. Ah, ela faria misérias. No bom sentido dessa palavra. Começaria pela avenida Boa Viagem, o cartão postal da cidade. Mandaria destruir toda pista dos automóveis. Na frente dos edifícios, faria calçadas uniformes, igual as de Paris, sem rebaixamento para automóveis. O calçadão permaneceria. Seriam retificadas e ampliadas a faixas de ciclismo. Carros não circulariam mais pela avenida. Adubado o terreno onde outrora andavam os automóveis, ali seria um canteiro de coqueiros e castanholas, e tudo mais que um bom paisagista seguidor de Burle Marx projetasse para o imenso jardim.

            Quem quisesse continuar com suas garagens e seus automóveis, tudo bem. Apenas teriam de circular somente pelas ruas e avenidas de trás. O trânsito ficaria um inferno mais do que já é. E a ideia é essa mesmo. Um incentivo para as pessoas descobrirem outras formas de se deslocar para a escola e o trabalho.

            Quando as ruas começassem a ser povoadas de pessoas ricas e pobres, as despesas com segurança pública seriam reduzidas à metade. Ruas cheias de gente dificultam a ação dos assaltos violentos. Os policiais dispensados mudariam de ocupação, para cuidar da jardinagem dos parques, que não cessariam de se multiplicar cidade afora.

            E o Recife deixaria de ficar atrás das outras capitais do Nordeste, quando nos anos cinquenta ele era líder de todas. Pois viriam repórteres do NYT, do Le Monde, da Times e do mundo inteiro, para ver o milagre de Pontevedra de Espanha aqui, nos Trópicos. E a cidade descobriria sua vocação turística. E entrou por uma perna de pinto e saiu por uma de pato, senhor rei mandou dizer que contasse mais quatro.

            Que quando a Mulher do Sétimo Andar começou a pensar nos grandes e ilusórios temas da economia… e a indústria automobilística, quando as pessoas descobrissem que estavam com mais saúde ao deixarem o carro na garagem?

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Caminhando pelo calçadão, depois de ter desistido de ser prefeita da cidade, a Mulher do Sétimo Andar principia a olhar em volta, igual como fazia nos tempos em que escreveu “Diários do Pina”. Sente um prazer secreto em recordar ao vivo as cenas que já foram temas de suas crônicas. Jovens de branco à beira mar para fazerem álbuns de fotografia da formatura… casais saídos da farra da sexta feira, sentados nos bancos do calçadão, ora ainda aos abraços, ora em DRs, de que são grandes aficionados os casais gays. Alguns caminhantes são velhos conhecidos pelo bom dia.

É certo que mudou um pouco o cenário, com as novas barracas de coco. Elas hoje oferecem um recanto mais confortável aos que dormem ao relento. A surpresa foi ver um desses, cor branca, cabelos ligeiramente alourados. Até hoje, a Mulher do Sétimo Andar só vira dormindo no calçadão negros e pardos. Talvez um refugiado argentino?

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Bom dia, meus queridos leitores. Não digo que estou de volta com a regularidade do tempo da pandemia, quando vocês me fizeram boa companhia. Minha escrita tem sido ocupada com outros assuntos. Mas de vez em quando dou uma incerta, e apareço para uma rápida visitinha domingueira.

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