Hoje, terça feira, 27 de fevereiro de 2024. São cinco e quinze da madrugada. Ouço o motor da primeira jangada que sai para pesca. O tempo parado. Não mexe uma folha de coqueiro. Com a janela aberta de par em par, é como se eu estivesse num camarote para apreciar o grande espetáculo da Aurora. Só que perdi meu ingresso. O sol ainda está encoberto em nuvens pesadas, antecipando março.
Atraída pelo barulho do motor da jangada, tiro a atenção da tela do computador e desvio o olhar para a esquerda. Espio o oceano cinzento. O barulho da jangada já está loonge. Volta o murmúrio do mar. Cada vez mais interrompido, pelos trabalhadores de terra com seus motores barulhentos na avenida Boa Viagem. Entra no mar a segunda jangada.
Penso na crônica. É a primeira vez que escrevo uma crônica por encomenda. Até então, escrevi apenas pelo prazer. E elas foram borbulhando feito mina d’água, derramaram-se da “Revista Será” para o meu blog Momentear, e foram minhas companheiras na Pandemia. Naquele tempo, impus-me uma disciplina monástica de publicá-las uma vez por semana, religiosamente aos domingos.
O tema da encomenda agora é Yoga. A bem da verdade, eu mesma havia sugerido esse assunto à revista, tal meu entusiasmo pela descoberta. Mas, como naquelas reuniões de departamento em que, quem sugere uma ideia, paga a conta, caiu para mim a redação da matéria.
Mas como? Sou apenas uma principiante. Descobri a Yoga em julho do ano passado, aos 78 anos. Foi durante um retiro de meditação silenciosa, em que o dia principiava com a prática de Yoga. E foi para mim, como um despertar de possibilidades inimagináveis de consciência corporal. Gostei de cara de um tal músculo chamado psoas, que não conhecia. Quando voltei do retiro, iniciei a prática de Yoga em aulas individuais em casa, pois as turmas já estavam formadas há mais tempo, e eu teria dificuldade em entrar no ritmo. Logo depois, minha irmã veio fazer as aulas comigo em casa. Aí surgiu a ideia de uma turma de 60 e +, que só veio a se concretizar em fevereiro deste ano.
Depois de seis meses de prática, sob a competente batuta de Bruna, sinto que, experimentar posturas desafiadoras para o corpo, meditar, aprender a respirar bem, é um poderoso antídoto, quase uma vacina, para enfrentar o melhor possível os desafios do envelhecimento do corpo.
Envelhecer. A terceira idade. Pus-me a pensar quais foram até agora as minhas idades. A primeira idade, vivi na casa de meus pais, em Garanhuns e depois no Recife. Aos vinte e quatro anos me casei. Entrei na segunda idade. Essa foi, até agora, a mais longa delas. Com uma rápida passagem pelo Recife, vivi a segunda idade em São Paulo. Lá construímos nossa família. Lá eu fiz minha vida profissional.
Em 2001 morre Hamilton. Um tsunami na família. Mudança para o Recife. O tempo da aposentadoria e da viuvez. Os filhos, cada um na sua casa. Tempo de construir a solitude, tijolo por tijolo. Estou vivendo minha terceira idade.
Espiando em volta, vejo que estou até bem acompanhada nessa idade; minha turma vem crescendo rapidamente nos últimos 30 anos. Os dados do Censo Demográfico da Fundação IBGE, mostram que, em 1991, a população de 60 anos e mais representava 7,30% do total da população brasileira. No último Censo, de 2022, representa 15,81%. No último intervalo inter-censitário (de 2010 a 2022), observa-se um crescimento geográfico ao ano de 3,77 dessa população de idosos, enquanto a população total cresceu apenas 0,52%. E nessa população da chamada terceira idade, predominam as mulheres: representavam 7,79% há 30 anos, e hoje somos 17,11%.
Onde já se viu tabelas de censo numa crônica? Pois é, queridos leitores. A cronista é socióloga. Mas voltemos o fio à meada.
Há dois anos venho me despedindo aos poucos desse meu lar de viúva. Sou de uma geração que sonhou utopias sociais na juventude. Hoje sonho utopias de velho. Minha quarta idade será um convescote de velhinhos independentes, participantes e não pacientes, sujeitos de nossas vidas e não objetos das decisões de nossos “filhos ou responsáveis”, podendo optar por uma passagem suave, sem UTIs, sem reanimações, com o conforto possível dos cuidados paliativos. Morando num lugar que fosse a nossa montanha dos elefantes, para onde se dirigem quando sentem que a morte se aproxima. Para minha morada da quarta idade preciso levar muito pouco; apenas o que me faz viva: a literatura, a música, e meu instrumento de trabalho, o computador.
E a Yoga, dona moça? Cadê a Yoga? Não é o título da crônica?
Ela esteve aqui o tempo todo.