02 de fevereiro de 2025
Dezembro de 1995. Vejo na última página do meu livro Brasileiros longe de casa (Cortez Editora, 1999), a fotografia que fiz com minha kodak do casal Jô e Zé, na comemoração do Natal em Framingham, área metropolitana de Boston. Estávamos lá eu e meus dois filhos. Houve amigo secreto e sorteio de uma cesta de natal, e fui sorteada, e torcia para não ser eu a sorteada, porque imaginava o que de fato continha: produtos brasileiros, chocolate Sonho de Valsa, símbolos do que havia ficado para trás no Brasil.
A celebração foi na paróquia de São Tarcísio, principiando pela costumeira missa do Padre Roque (que nunca demorou menos que duas horas), gaúcho da ordem religiosa dos scalabrinianos. Naquele dia houve teatro, daquele tipo que se encena em colégios do interior. O script foi a saga de José e Maria procurando lugar para o nascimento de Jesus, tendo que atravessar o Muro de Tijuana, no México.
Nas minhas observações participantes da pesquisa de 1995, frequentei muitas missas aos domingos naquela igreja, seguida de um lanche, onde se contavam as novidades do Brasil, notícias da imprensa brazuca (o Brazilian Times continua firme e forte por lá), compartilhavam-se experiências de trabalho, da vizinhança… Naquele dia não era um lanchinho qualquer. Todos os ingredientes de uma ceia de Natal faziam parte da farta mesa.
Para fazer as entrevistas, ia sempre de trem, pois existia uma linha que conectava Newton, onde eu morava, com Framingham. Mas aquele inverno foi brabo, dos mais rigorosos, com tempestades de neve que fecharam escolas, e precisava alugar um carro para seguir adiante com as pesquisas. Dessa segunda vez que morei em Boston como Visiting Scholar do MIT, levei meu filho caçula (o mais velho me acompanhara em 1990/91). Em dezembro, porém, de férias da USP, Miguel foi ter conosco. Era minha esperança para poder alugar o carro, pois minha carteira de motorista estava vencida e eu só fui perceber lá.
Desde minha primeira vez em Boston, tive a sorte de conhecer um americano que havia sido do Peace Corps quando jovem, conhecera na Bahia, naquela ocasião, uma moça por quem se apaixonou, casaram-se, e moravam em Newton com três filhos na faixa de idade dos meus. Ele acompanhava passo a passo na imprensa americana tudo o que era publicado sobre o fluxo migratório de brasileiros, que engrossava a cada ano. Esse precioso arquivo de jornal foi de muita serventia para minha pesquisa.
Pois bem, quando soube do problema de minha carta de motorista vencida, esse amigo americano se prontificou a ir comigo e meu filho alugar o carro numa agência no centro comercial de Newton, e tentar conseguir para mim, já que para meu filho não poderia, porque ele ainda não completara 21 anos. E agora? “Deixe comigo”, recomendou. “E você fique calada lá, enquanto eu negocio o aluguel do carro. Faz de conta que ainda não fala nada em inglês”. Quando a moça mostrou para ele, escrito em vermelho, a data em que expirara a validade do meu documento, ele retrucou que “expira” em português nada tinha a ver com “expired” em inglês. “E qual a data de validade da carteira?”. Ao que ele respondeu, com a maior cara de pau, que “No Brasil a carteira de motorista não tem prazo de validade”. A moça, por tudo o que aprendera na vida, não poderia duvidar da palavra dele. E na saída, quando nos despedimos na calçada, ele ainda comentou, “Pensa que jeitinho só existe no Brasil?”
Miguel ao volante do Ford Escort branco, eu copiloto, Pedro no banco de trás, segurando a travessa com uma salada de bacalhau; lá íamos nós, naquele 24 de dezembro de 1995, a caminho de Framingham. A temperatura abaixo de zero. Ruas abertas com sal em cima da neve pesada. Aquela neve acumulada nas ruas e calçadas, feia, que já não tem o brilho e a alegria dos primeiros flocos, brancos, brancos, iluminados por um dia de sol de inverno, lindos!
Tudo isso me veio à lembrança quando fui procurada por Laura Greenhalgh no começo da semana para uma entrevista (que será publicada no Eu & Fim de Semana, do Valor Econômico) sobre os imigrantes brasileiros no contexto das novas medidas de Donald Trump. Comigo, ela queria saber mais que os fatos divulgados pela mídia e redes sociais. Seria como uma contextualização desse que foi um dos mais recentes fluxos de migrações internacionais para aquele país, iniciado em meados dos anos oitenta do século passado. Eu acompanhei essa migração em vários momentos de pesquisa, desde 1990 a 2000, com dezenas de artigos publicados, e o livro citado ao início dessa crônica, que pela primeira vez deu visibilidade ao fenômeno.
Para essa entrevista, mais importante do que continuar acompanhando as notícias, que muito se repetem, era ler o que escrevera no livro. Ah, meus amigos, minhas amigas, que experiência inusitada! Não é que a gente se esquece de muita coisa?
Rosa (nome fictício) desembarcou em 1987 no aeroporto de Miami, a caminho de Boston. Com visto de turista (que foi a porta de entrada de muitos que permaneceram indocumentados e aos quais, de diferentes maneiras, os patrões americanos faziam vista grossa, pois precisavam daquela mão de obra), em algum momento Rosa falou algo que despertou desconfiança dos agentes da imigração.
“Daí se seguiram muitas perguntas, que resultaram em 16 horas de espera e num tremendo estresse, que culminou na descoberta de que eu não estava apenas de férias, mas que havia me demitido do emprego na empresa de mineração onde trabalhava em Belo Horizonte. O passo seguinte foi a minha deportação. Fiquei quase todo tempo algemada na cadeira onde prestava depoimento. E fui levada sob escolta até dentro do avião, para volta ao Brasil. Foi terrível, senti na pele o sentimento de fracasso e de que tudo estava perdido. (…) Chegando em Belo Horizonte, tomei um ônibus e fui direto para a casa de minha mãe em Sete Lagoas. Não queria ver ninguém. Cheguei de olhos ainda inchados de tanto chorar, e dormi quase 24 horas seguidas, tão cansada estava. Lembro ainda que, no meio daquele desespero e daquela vergonha, eu ainda disse para a mulher que cancelou meu visto: você pode até cancelar, mas eu volto, eu volto de navio, eu volto a pé, mas eu volto.”
A saga de Rosa para conseguir entrar clandestina nos Estados Unidos à caminho de Boston, onde estavam amigos mineiros que lhe dariam apoio para encontrar trabalho, passou ainda por uma tentativa de viagem de navio, que não resultou, e outra, também de navio, escondida com mais dois rapazes, no porão do navio numa viagem partindo de Ilhéus e que durou 35 dias, à base de biscoito e água, sem poder fazer barulho algum, até chegar finalmente à Filadélfia, vestida de homem e, tão fraca que mal conseguia andar.
Nas entrevistas, que em grande parte foram em grupos, o tema da aventura de entrada nos Estados Unidos ocupou páginas de transcrição. O que era comum à maioria delas, foi o tempo de chegada desses pioneiros, em grande parte provenientes do entorno de Governador Valadares.
Quando escrevi o livro, baseada nos dados quantitativos dos imigrantes brasileiros por mim entrevistados em 1995, na pesquisa amostral realizada em Governador Valadares em 1997, e no Censo Americano de 1990, constatei que o período de pico dessas migrações foram os três últimos anos da década de 1980. A explicação corrente para essa emigração, foi a “Década Perdida” (os anos oitenta do século XX).
Complementando essa explicação, eu escrevi, em artigo publicado em 1995:
“A chamada década perdida foi na verdade muito mais que uma época de recessão econômica. Nela, a sociedade brasileira se mobilizou e criou esperanças. O país se redemocratizou. Segmentos da sociedade se organizaram politicamente, partidos e movimentos sociais foram criados, o povo foi às ruas para exigir eleições diretas para presidente, voltamos a exercer o direito do voto para eleger o presidente. A inflação, o desemprego e a recessão não vieram sozinhos, mas junto com muitas perspectivas promissoras, e até vislumbres de saída da crise com o Plano Cruzado, ou as promessas políticas que se renovavam a cada eleição e cada fator de mobilização popular. O fator político teve, portanto, um peso na balança dessas migrações internacionais brasileiras, se se consideram as esperanças e frustrações dos primeiros anos de nossa redemocratização.” Naqueles três anos do final da década, foram três os planos econômicos que criaram esperanças e desilusões na população brasileira.
Hamilton era um ótimo interlocutor dos meus escritos, quando o tema lhe interessava. Escutando quando li para ele a minha versão do livro sobre o pico das migrações de brasileiros aos Estados Unidos nos três últimos anos da década dos oitenta, ilustrado por um gráfico, foi ele quem batizou esse período como “Triênio da Desilusão”. Grande sacada, Zé Hamilton.
Nessa crônica, escrita porque Guilherme anda me cobrando as domingueiras, meus leitores terão, ao impacto de uma releitura, alguma coisa do livro, alguma coisa do making off do livro, enquanto espero a matéria que Laura Greenhalgh publicará no Valor Econômico.
Eu estive no Canada no mesmo época. Ao lado da nossa casa, uma casa alugada com 11 homens, todos do Gov. Valadares, todas ilegais, trabalhando ou no construção ou, no inverno, nos restaurantes. Eles não tinham intenção de ficar no Canada – so ganhar um bom dinheiro para enviar para Brasil e, quando deu, voltar. As ondas de catar e expulsar os ilegais chegaram depois, ligadas ao recessão e mudança do governo.
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muito pertinente tua observação, Sidney. Estados Unidos e Canadá receberam muitos migrantes brasileiros nessa época. Obrigada pela leitura
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