
02 de março de 2018
Chove em Lisboa às oito horas da manhã e aqui estou mantendo a mesma rotina de acordar do Brasil, onde agora são cinco horas da madrugada. Com uma capa de chuva fazendo as vezes do robe que não trouxe na mala, corro à porta que se abre para uma minúscula varanda. Trinta e quatro centímetros entre a balaustrada de ferro trabalhado, encimada de madeira resistente a todas as intempéries do ano, e a porta. O espaço seria melhor nomeado de miradouro.
O frio seco da manhã, assim como a água fria da torneira, são agradáveis à pele do rosto e detestáveis ao pescoço, à cabeça, às mãos. Estou na rua da Verônica, número cento e cinquenta e dois, apartamento segundo andar à direita. Assim ele é nomeado na caixa de correspondência e nos correios: apartamento segundo direita. Não tem erro: sobe-se dois lances de escadas, olha-se à direita, cá está meu apartamento.
Um homem do Corpo de Bombeiros que olhasse de uma das dez janelas perfeitamente alinhadas à frente de meu miradouro (janelas que não se abrem nunca, não me dando chance de uma indiscreta), veria uma mulher de cabelos grisalhos, descobertos de chapéu ou guarda chuva, porque seu miradouro lhe protege da água de nuvens escuras.
Ele poderia se perguntar o que faz essa senhora, que ainda nem escovou os dentes, a olhar sem razão os que passam na rua? Não tem o que fazer, preparar o café da manhã, que já são horas, varrer e espanar a casa, ocupar-se de alguma coisa?
Não. Ela espia. Passam muitos escolares com suas mochilas às costas, a alegria juvenil a contar as aventuras da véspera. Passam trabalhadores, dirigem-se aos pontos de ônibus. Ou ao terminal do elétrico, o 28. Daqui vejo o círculo que faz os trilhos no chão de pedras portuguesas.
Espia e pensa com uma certa melancolia de tempos passados. Quando em sua terra ainda se caminhava pelas ruas, como aqui ela vê. A rua, esse espaço de cidadania que a guerra civil destruiu nas nossas ruas, onde vivemos o tempo do medo.
Esse monstro de segmentação social que é a sociedade brasileira de nossos dias não foi criado, como querem os que se dividem tão bestamente entre coxinhas e mortadelas, por governos esses ou aqueles, direita, esquerda, volver. Foi sendo gerado devagar, pela própria sociedade. Hoje, que o monstro aparece à luz do dia, horrendo, tomando a frente de todos os noticiários, uns se escondem dentro de fortalezas. Outros se defendem como podem nas filas dos hospitais, nos becos escuros onde correm as drogas clandestinas.
E a mulher pensa ainda que fez muito bem quando deixou seu título de eleitor perdido para sempre num distrito rural da Serra da Mantiqueira, um pedaço de paraíso na terra onde todos podem deixar a porta de casa aberta e receberão os forasteiros com uma quitanda, o nosso cafezinho. A partir dos setenta anos, a Unicamp já não exigirá comprovação de voto para liberar sua aposentadoria. Aposta hoje, essa velha, em caminhos que não passam pelo voto, mas pela coragem de jovens que principiam a ocupar as ruas, o espaço público da cidadania. Como ela é velha, fica no seu canto olhando pela janela, ou pela porta desse miradouro. Apreciando a vida passar.
Meu comentário de hoje é apenas para registro de minha leitura das últimas crônicas, como sempre, tão boas de ler.
Deitei-me para descansar o esqueleto dorido da faxina pesada, sem querer TV e dispersa para uma leitura mais densa. Lembrei-me do Bloco Momentear, que bom!
CurtirCurtir