Velhinhos do mundo, uni-vos

01 de março de 2018

Por que a gente acorda todos os dias com um sentimento de obrigação? Um sonho bom pode nos deixar ainda um pouco de olhos fechados, devaneando sobre o que se passou enquanto estivemos viajando em outros tempos, outros lugares. Às vezes nos demoramos aí uns cinco, dez minutos. Terá sido muito. Pois o sentimento de obrigação chega rápido para expulsar o devaneio.

Acorda! Ao trabalho! Pode não ser nada, só uma besteira. Como hoje, por exemplo. Acordei de um sono reparador – oito horas sem parar – e o primeiro pensamento, já com os pés no chão para ir ao primeiro xixi do dia, é que preciso fazer mercado.

Sim, eu sei que essa deverá ser a primeira tarefa do dia. A segunda é telefonar ao dono do apartamento para ele me auxiliar com a internet, que não está conectando. E a última, ligar para Edinha, na minha casa do Brasil, para ela guardar em lugar seguro os mil euros e mil dólares que deixei em cima da mesa, dentro da bolsa que deveria ter viajado amarrada à minha barriga.

Providências simples, fáceis. Não terei que decidir como articular uma candidatura à presidência do país numa reunião daqui a pouco. O conteúdo das tarefas que tenho para o dia de hoje é trivial. Por que esse sentimento de obrigação? É parte constitutiva nossa de ser adulto. Os meninos acordam com o sentimento de brincar. Quaisquer outras tarefas, é desvio de rota. Ou eles as transformam em brincadeira.

Ontem cheguei em Lisboa. Ainda no aeroporto dos Guararapes, aguardando a chamada do voo da TAP, a moça anuncia: adultos com crianças, pessoas necessitadas de cuidados especiais e idosos de mais de oitenta anos, dirijam-se à fila da esquerda. Por nada desse mundo deixaria de ir à fila da esquerda. Enquanto para lá me dirijo, já matutando que minha coluna torta merece cuidados especiais (caso a moça confrontasse minha idade no passaporte), penso na demografia.

Vejam bem, leitores, mire e veja, Oitenta anos! Com exceção dos muito pobres ou muito religiosos, que ainda são mais da metade do mundo, somos uma sociedade de velhos. Velhinhos do mundo, uni-vos! Mudamos a agenda de prioridade de muitas políticas públicas.

Só me dei conta de que esquecera a bolsa com os dinheiros em cima da mesa, quando em cima do Oceano Atlântico. Na minha carteira, alguns reais e duzentos e cinquenta e cinco euros. Nessa viagem planejara fazer menos gastos no cartão e mais em efetivos, como diria algum contador. Mas isso não chegou a tirar mais do que alguns minutos de preocupação. Possivelmente esses euros serão suficientes para as poucas despesas em que não se pode usar cartão de crédito. E, em último caso, este também poderá retirar dinheiro vivo em qualquer caixa de rua. E salve o plástico e outros meios mais que a tecnologia inventará para substituir o vil metal.

Deixe um comentário