28 de fevereiro de 2018
Viaja a meu lado, ocupando duas das cadeiras do meio do avião, um casal gay. Dois rapazes. Afora serem alegres, são simpáticos, inteligentes. A humanidade caminha depressa na mudança de costumes, para acompanhar a correria da tecnologia. A reprodução separa-se do prazer, do sexo. Estes, escolhe-se entre diferentes ou iguais. E assim anda o mundo.
As companhias aéreas, os hotéis, o turismo, a propaganda, correm atrás desse novo público ávido dos prazeres da vida. A política tão pobre, a economia tão confusa. A sociedade, essa caminha com seus próprios pés, a passos rápidos, junto à tecnologia. Nós, os velhos, precisamos quatro patas aos pés e quatro mãos aos membros superiores para acompanhar o correr dessa nova era. E vamos que vamos, invertendo a ordem das coisas, os idosos aprendendo com os jovens. Vejam bem, que revolução!
Em homenagem a todos os gays, na mesinha de comer da aeronave, escrevo em vermelho no meu caderno de capa azul. Um pastoril.
Pastoril é uma festa que herdamos dos ibéricos da Idade Média. Uma idade muito dificultosa, porém tão rica em cultura que chega a nossos dias, tendo atravessado oceanos. Tudo porque os mouros invadiram a dita península em idos tempos. Invasores, eram vistos como o cão dos infernos e foram associados à cor encarnada. Os ibéricos, cristãos, ao azul do céu. Daí nasceram as cavalhadas e o pastoril.
A mim, coube-me o pastoril. Que festa bonita! Porém não posso dizer do pastoril sem antes me referir a um padre. O padre Victor, um holandês da ordem religiosa dos Redentoristas, foi aportar em Garanhuns. Comprava muita briga com os crentes. Era cioso da fé católica. Naquele tempo ainda se rezava a missa em latim e havia silêncio e recolhimento na igreja católica. Os crentes eram mais barulhentos, com autofalantes para fora da igreja para que todos ouvissem a pregação do pastor. E os crentes não rezavam em silêncio, mas oravam com voracidade. Por isso, nas brigas entre católicos e protestantes, aqueles chamavam a estes, pejorativamente, bodes, os que muito berram. O padre Víctor era um dos grandes protagonistas desta briga. Hoje, estaria incondicionalmente perdido na disputa.
Um médico de Garanhuns, o Doutor Otoniel Gueiros, amigo de meu pai, era um homem bem humorado e se dizia bode em grandes risadas. Porém, amedrontado, deixou sua clientela ao Doutor Sales. Tivera o azar de não chegar a tempo de salvar a parturiente. Ficou o filho órfão de mãe. Voltou da roça para Garanhuns embaixo de tiros de espingarda.
Naquele tempo e naqueles Agrestes, o médico era chamado para fazer partos se a parteira não desse conta do recado. Tanto que, quando de minha pesquisa para a tese de doutorado, entrevistando uma tia de Lula, quis saber se o parto de dona Lindu, ao nascimento dele, havia sido dificultoso. Não, disse-me ela, comadre Lindu deu à luz todos os filhos com parteira. Caso contrário, teria sido meu pai a botar no mundo um presidente da república, no mesmo ano em que nasci.
Garanhuns não era fácil, na sua conexão direta com as Alagoas do Sindicato do Crime. Pistoleiros pobres, coitados, ganhando uma miséria por assassinato cometido a mando. Conheci um deles, que todos nós, ainda meninos, chamávamos de Compadre Severo. Filho todo ano, sem dinheiro para pagar o parto, o doutor Sales era convidado para padrinho. Além do enxoval da criança, uma das filhas meninas era madrinha de apresentar ou consagração. A quantas festas de batizado de gente pobre terei ido na minha infância? E o Compadre Severo arrematava, Dinheiro não tenho, doutor, mas qualquer tempo que o senhor precisar de qualquer serviço, para o senhor não cobro nada.
O pastoril que o Padre Victor organizava (para angariar fundos à igreja) era animado, no bairro de Heliópolis. Assim batizado pelo tio de Fernando Dourado, a quem ele puxou na fanfarronice. Mas o nome não pegou, pois todos sabiam que ali era o Arraial. Na época do Advento (na liturgia católica, o que antecede o Natal), o padre Victor realizava o pastoril, em um terreno grande na frente da Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
Sempre torci pelo cordão azul. “Azul é o céu, azul é o mar, azul é a rainha que nós vamos coroar”, era nosso refrão. E assim continuei, mesmo depois que passei a brincar o carnaval, puro encarnado, mesmo depois de virar comunista no tempo de estudante universitária. Torcida de pastoril se parece muito com a de futebol, uma vez Santa Cruz, Santa Cruz sempre.
Sabia-me muito tímida para ser a contra-mestra do cordão azul. Me conformaria ( conformar-me-ia é feio demais para ser português correto) em ser a última das pastoras. Meu pai, porém, não permitia. O palco do pastoril ficava num tablado acima do chão de terra batida, um palco, e os rapazes iam apostar num dos cordões para ver as pernas das meninas-moças.
Um dia, com idade para ser avó, realizei meu sonho de ser pastora. Mais que pastora, a própria contra-mestra, quem sai na frente do cordão, comandando as pastoras em fila, em cantos e danças de uma inocência que depois foi profanada em pastoris de putas em tudo que era ponta de rua de tudo que é cidade de meu Pernambuco.
Para a festa de Aldeia, que originalmente seria na casa da mestra do cordão encarnado, muitos amigos foram convidados. No convite para vários, sabedora eu de sua torcida pelo encarnado, fiz uma pequena chantagem: viriam à festa com a condição de torcer pelo azul. Um deles, Sílvio Ernesto, torceu de fato. Mas, ironicamente, vestido com uma camisa encarnada.